Publicado em 02/06/2015Populares ao lado

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Construção de habitaçõe sociais em áreas nobres de São Paulo incomoda alguns moradores

Um grupo de moradores da Vila Leopoldina, bairro nobre da zona oeste de São Paulo onde o metro quadrado está avaliado em R$ 9.931 (índice FipeZap), tem se revoltado contra a demarcação de um terreno de 30 mil metros quadrados para a construção de prédio de interesse social.

Segundo reportagem do jornal El País, de grande circulação na Espanha, a área, usada atualmente pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), já abrigou a garagem da antiga viação Âmbar, e tem solo contaminado pelo óleo dos ônibus que ficavam estacionados.
Os melhores protestos alegam que a ocupação seria um risco à saúde de moradores.

A CET já informou, no entanto, que há um processo de descontaminação em andamento, e a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) confirmou, em nota, que não existe risco às pessoas, sendo a única recomendação não utilizar poços para captar água subterrânea.

“O nosso pleito é que a área seja uma biblioteca, ou um parque”, explicou Rafael Bernardes, diretor de planejamento da Associação Vila Leopoldina, ao jornal espanhol.

O problema, no entanto, é que apesar de a associação não admitir um discurso “higienista”, muitos moradores estão é preocupados com a desvalorização dos imóveis que a construção de moradias populares poderia acarretar. Em outras palavras, o problema na Vila Leopoldina é social.

A origem da discussão está no Plano Diretor Estratégico (PDE) de São Paulo, que trouxe as chamadas Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS). Elas nada mais são que uma previsão da construção de habitações populares em diversos pontos da capital paulista.
“O novo PDE prevê que uma maior parcela da população possa morar em regiões centrais, mais próximas dos locais onde trabalham.

São Paulo é uma cidade multifacetada e, sem dúvida, os moradores de áreas mais nobres terão que aprender a conviver com esse novo cenário”, pontua José Augusto Viana Neto, presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (Creci-SP).

Para ele, é preciso haver consenso entre as partes envolvidas sobre onde esses projetos serão implantados: “Acredito que qualquer área que passe por esse processo precisa ser muito bem analisada, para que não cause prejuízos a ninguém. É fundamental ouvir a sociedade, as associações de bairros e as entidades que pleiteiam moradias populares”.

Para Viana, mesmo que haja alguma desvalorização inicial do valor dos imóveis na Vila Leopoldina, isso não deve ser motivo de preocupação, já que a dimensão da metrópole garante que essas diferenças sejam absorvidas com o tempo, até que os preços voltem a um ponto normal de equilíbrio que, por fim, acaba sendo ditado pelo mercado.

Já segundo Claudio Bernardes, presidente do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP), não há razão para prever variações drásticas de preços, pois seu cálculo leva em conta inúmeras variantes que independem do tipo de habitação.

“Moradias populares ou de interesse social não desvalorizam uma região, nem interferem no preço dos imóveis do entorno. São as condições macroeconômicas que influenciam o mercado imobiliário”, defende.

Bernardes não só desacredita o temor dos moradores da Vila Leopoldina: “Somos totalmente contrários à criação de guetos ou formação de bairros para ricos separados de bairros para pobres”, enfatiza. O fato é que todos têm direito à vida digna, com qualidade e acesso a moradia em região mais confortável e próxima do seu local de trabalho – e é por esse direito que o novo PDE de São Paulo tem trabalhado.

Mas tudo tem seu lado positivo: exemplo é um conjunto habitacional que abriga famílias da antiga favela do Jardim Edite, zona sul de São Paulo – nas proximidades da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, centro empresarial da região da Vila Olímpia (das mais caras da cidade).

A edificação tem arquitetura moderna, assinada por arquitetos dos escritórios MMBB e H+F – o que valoriza a vista do local -, e foi construída ao lado da ponte estaiada, em região de pleno crescimento econômico. Por fim, não afetou em nada o valor do metro quadrado, nem no Brooklin, onde está avaliado em R$ 10.500, e muito menos no Morumbi, onde ainda há muitas favelas e a valorização dos terrenos foi de 144,7% nos últimos sete anos.

Ao que tudo indica, ter diversidade social e moradia popular próxima, bem projetada e executada, pode até mesmo enriquecer e valorizar ainda mais bairros luxuosos de São Paulo.

Construir pontes, barragens ou outras estruturas localizadas parcial ou totalmente dentro da água exige o trabalho de concretagem submersa. 

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