Publicado em 18/12/2015Especial Seminário BIM

Especial Seminário BIM

Sexta reportagem da série Seminário BIM discute a diferença entre o que é finalidade da tecnologia e qual é a da construção civil

Seminário BIM – A execução de projetos complexos, como o Walt Disney Concert Hall (EUA) e o Museu Guggenheim Bilbao (Espanha), apresentava grandes desafios à arquitetura do canadense Frank Ghery, ganhador do Prêmio Pritzker e considerado um dos maiores arquitetos da atualidade. Sua história profissional é icônica, porque o trabalho no desenvolvimento de formas distorcidas, orgânicas ou até mesmo caóticas pressupõe um fetichismo pelo processo de projeto, ou a prevalência do esboço arquitetônico sobre as próprias leis da física.

Verdadeiro artista contemporâneo, a arquitetura escultórica colaborou também no desenvolvimento de tecnologias e softwares – e do próprio BIM (Building Information Modeling), ferramentas que se tornavam necessárias à execução de projetos que inquietavam construtores e gerenciadores de obras. Em outras palavras, Gehry desenhava para, depois, descobrir como construir.

Estudando meios de execução de seus projetos, o arquiteto conheceu o Computer Aided Three-dimensional Interactive Application (CATIA), software que une plataformas CAD, CAM e CAE, muito utilizado pelas indústrias naval e aeronáutica. Era a possibilidade de desenvolver peças curvas com precisão para otimizar fabricação e montagem dos volumes que desenhava, encaixando neste processo prazos e preços praticáveis. “Foi onde tudo começou”, relata o arquiteto Danilo Terra, da Terra e Tuma Arquitetos. “A necessidade de sanar um problema de comunicação do projeto com a realidade da obra fez com que Gehry buscasse meios de conversar com a máquina que produz o material a ser utilizado na execução; a partir daí, ele ia gerando seus próprios softwares. É uma nova era tecnológica no campo dos projetos”, conta.

Com isso, grandes empresas de tecnologia avançaram no desenvolvimento de tecnologias como o BIM: ferramenta que possibilita visualizar a execução de qualquer forma que se queira projetar, em qualquer tipo de projeto. “Não negamos esta evolução da tecnologia, porque qualquer ajuda é muito bem vinda. O problema, acredito, é que a tecnologia passa a ser usada e desenvolvida como um fim em si mesmo – e isso não reflete a finalidade da arquitetura”, critica.

Durante o Seminário BIM, Danilo relembra que todas as ferramentas devem ser usadas de forma criteriosa, porque não é a ferramenta que define o que vai ser uma boa arquitetura. “É preciso se questionar quais são os objetivos, o que realmente precisa ser melhorado no projeto que se está a desenvolver.” O fato é que um escritório de arquitetura, ou de engenharia, não precisa ser uma Intel, nem uma Microsoft, e nem uma Autodesk – exatamente porque esta não é sua função, em princípio.

O fim da construção é outro, e até que se profissionalizar em softwares e tecnologias não seja uma necessidade do arquiteto, é preciso se perguntar se entrar nessa onda vale realmente a pena. “O BIM não é para todo mundo”, conclui o arquiteto Pedro Tuma, do mesmo escritório.

Questão de custos

Para Danilo Terra e Pedro Tuma, tecnologias muito avançadas acabam se tornando elementos de especialização em nichos de mercado – o que significa excluir desses nichos todos aqueles que não conseguem fazer o investimento inicial – para um escritório pequeno, de três arquitetos, implantar o BIM pode custar R$ 70 mil, só em licenciamentos. “A gente já trabalhou com o BIM, mas no início é muito demorado, porque há um período de adaptação ao sistema. E o tempo, quando a produção é lenta, também representa um alto custo.”

A dupla de jovens projetistas considera importante não trabalhar com pirataria: “Prezamos por ter todos os softwares licenciados, ou usamos os livres, quando possível. De qualquer forma, o investimento é muito alto, tanto para um escritório pequeno, quanto para o grande. A Zaha Hadid, por exemplo, tem gastos astronômicos em programas, licenças e renovações anuais”, aponta Pedro.

Além disso, é preciso pensar em ter uma equipe interna de gerenciamento do sistema, sem contar a necessidade de treinar não só esta equipe, mas toda a de projeto. “E isso não se faz rapidamente, em um mês”, pondera. “A complexidade é gigantesca. O que a passagem do CAD para o BIM trouxe em termos de impactos sobre a rotina dos escritórios não é nada que se compare à passagem da prancheta para o CADE.”

Questão de linguagem, e de necessidade

Nem todo projeto precisa da exatidão de um BIM, e o projeto da Casa Vila Matilde, em São Paulo, desenvolvido pela Terra e Tuma Arquitetos, é prova disso, pois sintetiza o melhor da arquitetura, em solução muito simplificada. “Não podemos parar de ser curiosos, nem de buscar novas ferramentas que melhorem os projetos e as obras. Mas também é fato que não dá para introduzir uma linguagem suíça em 3D, 4D ou 5D, numa obra de porte mínimo, com orçamento total limitado a R$ 150 mil, onde o operacional contratado para o canteiro mal sabe diferenciar uma planta de um corte”, pondera Pedro.

Neste ponto, a Casa Vila Matilde é tão icônica quanto o Walt Disney Concert Hall, de Gehry – só que expõe um contraponto. “Há vários níveis de obra. Na obra da residência de uma empregada doméstica que trabalhou a vida inteira para ter uma moradia digna, a realidade é outra. A Casa Vila Matilde nós mesmos gerenciamos, instruímos pedreiros e fornecedores de materiais. O que pudemos perceber foi que, numa escala muito menor – nada comparável à das grandes obras esculturais de museus ou de grandes auditórios, o que sobrevive à rotina dos canteiros é uma planta, e alguns cortes de fácil leitura e compreensão, mostrando quantos blocos de concreto o pedreiro vai ter que empilhar numa determinada parede.”

Decidiram então reduzir o projeto executivo da Casa Vila Matilde, de 70 folhas, em média – incluídos todos os detalhes técnicos-, para apenas quatro folhas, com o essencial para que o profisisonal na obra entendesse, sem dúvidas, o que era preciso fazer. Ou seja, nada que chegasse próximo da ideia de uma simulação 3D. O caso ilustra a importância de entender a diferença entre o mundo imaginado do projeto, e o mundo real, do canteiro, onde nem sempre o detalhe técnico pode ser executado à risca, do jeito que foi calculado e desenhado, seja por uma deficiência técnica da mão de obra, seja por alguma incompatibilidade dos materiais, condições ambientais impróprias ou limitações orçamentárias do cliente.

“Embora algumas coisas devam ser precisas em qualquer tipo de construção – como, por exemplo, o tamanho do vão para porta ou janela -, não é possível abrir mão de um pragmatismo que mantém o foco no resultado final e no interlocutor do projeto (com quem o projeto se comunica?), e que revê os próprios processos de projeto, adaptando-os às possibilidades de cada caso”, analisa Danilo.

Diante de tantas novidades tecnológicas – são várias a cada ano -, não é possível se perder, nem perder a noção daquilo que a arquitetura (e a engenharia civil) se propõe: o atendimento de diversas realidades – da pequena obra residencial, que é a esmagadora maioria dos projetos, aos grandes projetos de espaços públicos e infraestrutura, que representam, quiçá, 2% do volume de trabalho dos escritórios.

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