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Publicado em 02/01/2017Desempenho e perspectivas do setor concreteiro
Apesar das dificuldades de 2016, Júlio Timerman se diz otimista em relação a 2017Créditos: Banco de Imagens do IBRACON Foto_Alessandro Carvalho

Desempenho e perspectivas do setor concreteiro

Presidente do Ibracon faz balanço dos resultados apresentados pelo mercado em 2016 e projeta as expectativas para o próximo ano

Em entrevista ao Mapa da Obra, o engenheiro Júlio Timerman, presidente do Instituto Brasileiro do Concreto (Ibracon), faz um balanço do desempenho econômico do setor em 2016 e traça cenários para o próximo ano. Embora as previsões de muitos apontem para a retomada do mercado apenas em 2018, Timerman se diz otimista e acredita que investimentos em rodovias e obras de infraestrutura devem movimentar o setor do concreto em 2017. Confira!

Mapa da Obra – Como foi o ano de 2016 para o setor do concreto no Brasil?

Júlio Timerman – Assim como ocorreu com toda a cadeia produtiva da construção civil, o setor sofreu o impacto da economia recessiva. Houve uma redução de cerca de 20% no consumo de cimento e concreto em relação ao ano anterior, o que é bastante expressivo.

MDO – Qual a sua análise sobre esse resultado?

Júlio – Estamos passando por um momento muito difícil. O governo paralisou as obras públicas, e as grandes empreiteiras se veem em meio a acordos de leniência para voltar a participar de licitações. Em um efeito cascata, construtoras de médio e pequeno porte, que não fecharam as portas, tiveram de enxugar custos, o que resultou no fechamento de milhares de postos de trabalho. O segmento imobiliário também não consegue fazer novos lançamentos e dar vazão para o que já está construído.

MDO – Como a crise atingiu as concreteiras?

Júlio – O segmento resiste bem. Com o dólar alto e a demanda reprimida no Brasil, concreteiras nacionais passaram a trabalhar nos Estados Unidos. É comum ver os caminhões dessas empresas com nossa bandeira trafegando pelas ruas de Miami, por exemplo. O brasileiro é criativo e busca novos mercados em momentos como o atual, exportando serviços.

MDO – Quais as perspectivas para o próximo ano?

Júlio – O Brasil tem muito por fazer na construção civil, desde obras de infraestrutura e habitação até escolas e hospitais. Alguns analistas preveem que a retomada do crescimento da economia só ocorrerá em 2018. Sou otimista e acredito que já no próximo ano os Estados voltarão a investir. Em São Paulo, por exemplo, há toda uma malha rodoviária exigindo duplicação e manutenção, a construção de pontes e viadutos, praças de pedágio e edifícios administrativos. O governo estadual já publicou editais para a concessão de novos trechos rodoviários. O executivo federal também tem urgência, como revela a previsão do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Denit) de abrir licitação para a revitalização de 1800 pontes, com uma verba de R$ 7 bilhões. Ações como essas vão movimentar todo o setor do concreto, dos projetistas às cimenteiras e concreteiras, passando pelas construtoras.

MDO – A presença de concreteiras nacionais no exterior prova que o concreto brasileiro é bem aceito lá fora?

Júlio – A qualidade do concreto brasileiro está à altura dos melhores produtos internacionais. O Brasil é o único país da América Latina que tem norma técnica própria de dimensionamento das estruturas de concreto armado e protendido – a ABNT NBR 6118, uma norma ISO. Os países do nosso continente utilizam a norma norte-americana. O Brasil tem uma competência técnica fantástica, reconhecida mundialmente, e sempre esteve na vanguarda. Basta lembrar que fomos o primeiro país do mundo a utilizar o processo de balanços sucessivos para a construção de pontes, na década de 1950.

MDO – O Brasil conta com boas soluções em aditivos para concreto?

Júlio – Sim, estamos bem servidos nessa área, que abrange acelerador de pega, compensador de retração, aditivos para aumentar a resistência do concreto e também para sua impermeabilização. Tudo o que especificamos em projeto é plenamente atingido pelas concreteiras. O professor Paulo Helene, que é diretor de Relações Institucionais no Ibracon, junto com o projetista Ricardo França, desenvolveu há cerca de seis anos o concreto dos pilares do e-Tower, edifício construído pela Tecnum no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. É o concreto da mais alta resistência conhecida no país, que chegou a 130 Pa (mega pascal), quando o usual é de cerca de 40 Pa. A solução foi interessante para o empreendimento, pois quanto mais alta a resistência do concreto, menor a área do pilar e, portanto, maior a área útil do prédio.

MDO – Há alguma área técnica em que o concreto ainda precisa evoluir?

Júlio – Ficamos um pouco defasados em relação a outros países na área de pesquisa. As crises econômicas da década de 1980 e novamente agora reprimiram a pesquisa de novos concretos: de alta resistência, autoadensável e de alto desempenho. Laboratórios existem, mas faltam verbas para os ensaios. As pesquisas, no Brasil, sempre foram acadêmicas. Porém, é preciso que as universidades façam esse desenvolvimento vinculado à cadeia produtiva, com conteúdo de cunho prático.

MDO – O Ibracon também está revendo seus programas de conhecimento?

Júlio – Recentemente, o Ibracon redirecionou sua política de atuação na área de geração de conhecimento. O foco eminentemente técnico e acadêmico, criticado pelo mercado, principalmente pelas construtoras, está dando lugar para workshops e seminários sobre boas práticas das estruturas de concreto. Estamos investindo em temas práticos do interesse dos associados.

 

 

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